- por Nedisson Gessi
Durante muito tempo, o LEGO® Serious Play® ficou fortemente associado à realização de workshops.
Essa associação é compreensível. Os workshops criam um ambiente protegido, organizam o tempo, reúnem as pessoas em torno de um desafio e permitem que um facilitador conduza uma experiência estruturada. Neles, os participantes constroem modelos, compartilham histórias, escutam diferentes perspectivas e desenvolvem entendimentos sobre questões importantes para o grupo ou para a organização.
Esse formato continua sendo valioso.
Mas uma pergunta começa a ampliar nossa compreensão sobre a metodologia:
E se o LEGO® Serious Play® não estivesse presente apenas nos workshops, mas também na maneira como as pessoas trabalham, conversam, refletem e tomam decisões?
Quando o workshop deixa de ser a única referência
Em muitas organizações, o LEGO® Serious Play® ainda é percebido como uma atividade especial.
Existe uma data definida, uma sala preparada, materiais organizados, uma programação e uma pessoa responsável por conduzir o processo. Durante algumas horas, as atividades habituais são interrompidas para que a equipe possa olhar para um desafio com mais profundidade.
Ao final, as pessoas retornam à rotina.
O risco aparece quando passamos a acreditar que a metodologia só pode gerar valor dentro dessas condições especiais. O workshop deixa de ser uma das possibilidades de aplicação e passa a ser entendido como a única forma legítima de utilizar o LEGO® Serious Play®.
Essa percepção pode limitar o potencial da metodologia.
Os desafios que justificam um workshop não aparecem apenas quando uma organização decide reservar uma manhã ou um dia inteiro para enfrentá-los. Eles estão presentes diariamente nas reuniões, nos projetos, nas relações entre equipes, nas decisões de liderança e nas conversas que não conseguem avançar.
O trabalho de compreender acontece todos os dias
Grande parte do trabalho organizacional envolve uma atividade que nem sempre aparece nos indicadores ou nas descrições de cargos: a construção de sentido.
As pessoas precisam compreender situações incompletas, interpretar comportamentos, negociar prioridades, lidar com divergências, explicar experiências e tomar decisões mesmo quando não possuem todas as informações.
Uma reunião sobre planejamento pode revelar que as pessoas possuem entendimentos muito diferentes sobre o que é prioridade.
Uma conversa entre dois departamentos pode demonstrar que ambos utilizam as mesmas palavras, mas atribuem significados completamente distintos a elas.
Um diálogo sobre cultura pode mostrar que os valores descritos institucionalmente não correspondem às experiências vividas pelas pessoas.
Em situações assim, o problema nem sempre é a falta de informação. Muitas vezes, o que falta é uma forma de tornar os diferentes pensamentos visíveis, compartilháveis e discutíveis.
É justamente nesse espaço que a construção pode contribuir.
Construir para fazer o pensamento avançar
Quando as pessoas constroem modelos para representar aquilo que pensam, percebem ou sentem, ideias abstratas ganham uma forma concreta.
O modelo permite que uma experiência difícil de explicar seja externalizada. Em vez de permanecer apenas na mente de uma pessoa, ela passa a ocupar um espaço na mesa, podendo ser observada, explicada, questionada e compreendida pelo grupo.
A construção não elimina a complexidade. Ela ajuda a trabalhar com ela.
Ao construir, a pessoa organiza suas ideias.
Ao compartilhar, atribui significado ao modelo.
Ao escutar, entra em contato com outras perspectivas.
Ao refletir, pode rever interpretações e desenvolver novos entendimentos.
Esses movimentos não são importantes apenas durante workshops. Eles também podem apoiar momentos cotidianos do trabalho.
Da intervenção pontual para uma prática integrada
Pensar o LEGO® Serious Play® como prática significa reconhecer que seus princípios podem contribuir para situações que já estão acontecendo dentro das organizações.
Uma construção pode ser utilizada quando:
- uma conversa está travada;
- diferentes interpretações não conseguem se encontrar;
- uma equipe precisa compreender melhor um problema;
- uma liderança deseja escutar perspectivas que normalmente não aparecem;
- uma pessoa encontra dificuldade para expressar determinada experiência;
- um grupo precisa desenvolver uma visão compartilhada;
- um projeto exige reflexão antes de uma decisão importante.
Nesses casos, a metodologia deixa de aparecer apenas como uma intervenção externa ao trabalho e começa a participar do próprio trabalho.
Isso não significa transformar todas as reuniões em workshops ou colocar peças sobre a mesa sem um propósito claro. Significa desenvolver a capacidade de reconhecer os momentos em que construir pode ajudar as pessoas a pensar, comunicar e compreender melhor.
O papel do facilitador também se amplia
No modelo tradicional, a competência em LEGO® Serious Play® costuma estar associada à capacidade de desenhar e conduzir workshops.
Essa competência continua sendo fundamental. Elaborar boas perguntas, administrar o tempo, criar segurança psicológica, sustentar a participação e conduzir processos de reflexão exige preparação e experiência.
Entretanto, quando a metodologia passa a ser compreendida como prática, outras competências tornam-se igualmente importantes.
O facilitador ou profissional precisa perceber o que a situação está pedindo.
Precisa saber quando construir pode contribuir e quando outra abordagem será mais adequada.
Precisa adaptar a aplicação sem perder os princípios que dão sentido ao processo.
Precisa compreender que o valor não está apenas nas peças, mas na qualidade da pergunta, na construção do significado, na escuta e na reflexão promovida a partir do modelo.
A metodologia não deve ser aplicada para demonstrar criatividade ou produzir uma atividade visualmente interessante. Ela precisa ajudar o trabalho a avançar.
Adaptar não significa utilizar sem critérios
A ampliação das possibilidades de aplicação também exige responsabilidade.
Nem toda atividade realizada com peças LEGO® pode ser chamada de LEGO® Serious Play®. A metodologia possui princípios, uma estrutura de participação e um processo que envolve desafio, construção, compartilhamento e reflexão.
Uma atividade rápida pode utilizar peças LEGO® como recurso para aprendizagem, integração ou criatividade sem necessariamente representar uma aplicação completa da metodologia.
Essa distinção é importante porque protege a consistência do LEGO® Serious Play® e evita que o método seja reduzido a uma dinâmica recreativa.
Ao mesmo tempo, preservar seus fundamentos não significa repetir sempre o mesmo formato. Uma prática madura não é construída apenas pela reprodução de roteiros. Ela se desenvolve por meio de conhecimento, experiência, julgamento e adaptação consciente.
O conhecimento também está com quem vive o trabalho
Quando uma metodologia entra no cotidiano de uma organização, ela encontra uma realidade que nenhum roteiro consegue antecipar completamente.
As pessoas que vivem o trabalho conhecem seus ritmos, pressões, relações, limites e consequências. Elas possuem conhecimentos que o facilitador externo ou a própria metodologia não conseguem oferecer sozinhos.
Por isso, integrar o LEGO® Serious Play® ao trabalho também significa confiar na capacidade dos profissionais de apropriarem-se de seus princípios e criarem aplicações coerentes com seus contextos.
Essa apropriação não acontece pela simples entrega de peças ou de uma lista de perguntas. Ela depende de aprendizagem, prática, reflexão e compreensão sobre aquilo que a construção está tornando possível.
Quando isso acontece, as pessoas deixam de ser apenas participantes de um workshop e passam a ser protagonistas de uma nova maneira de pensar e conversar.
O workshop continua importante
Ampliar o olhar sobre o LEGO® Serious Play® não significa diminuir a importância dos workshops.
Eles continuam sendo espaços privilegiados para trabalhar questões complexas, desenvolver modelos compartilhados, construir cenários, explorar sistemas, definir princípios orientadores e apoiar decisões estratégicas.
O que muda é a compreensão de que o workshop não precisa representar o limite da metodologia.
Ele pode ser o início de uma prática mais ampla.
Uma experiência estruturada pode desenvolver nas pessoas novas formas de escutar, perguntar, construir significado e compreender diferentes perspectivas. Essas competências podem continuar presentes depois que as peças são guardadas e a programação termina.
O verdadeiro impacto acontece quando aquilo que foi vivido no workshop começa a modificar a forma como as pessoas se relacionam com os desafios do cotidiano.
Da experiência para a cultura
Na LETUS®, compreendemos o LEGO® Serious Play® como uma metodologia capaz de criar experiências profundas de aprendizagem, participação e construção de sentido.
Mas seu potencial não precisa ficar restrito a momentos especiais.
Ele pode influenciar a maneira como lideranças escutam suas equipes, como profissionais refletem sobre suas práticas, como grupos enfrentam problemas e como organizações constroem entendimentos compartilhados.
O futuro da metodologia talvez não esteja apenas na realização de mais workshops.
Talvez esteja na criação de ambientes em que construir, compartilhar, escutar e refletir façam parte da cultura de trabalho.
Porque uma organização não aprende somente quando participa de um treinamento.
Ela aprende quando transforma a maneira como suas pessoas pensam, conversam, decidem e constroem juntas.